• Carlos Henrique Silva

A DESPEDIDA DE AURINHA DO COCO E A NECESSIDADE DE VALORIZAÇÃO DA CULTURA POPULAR

Uma das maiores representantes do coco de roda do Brasil, Aurinha estava fora de sua terra natal desde o início da pandemia

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Foto: Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe


Nesta breve homenagem, registramos a partida da mestra Aurinha do Coco, aos 63 anos, com um tom de pesar, tanto pela perda de uma vida, quanto pela desvalorização de uma parte importante de nosso patrimônio cultural. Uma das guardiãs do Coco de Roda no Estado, ela estava sendo cuidada pela família no Rio de Janeiro, cidade onde morava desde o início da pandemia.


Segundo Dora Motta, produtora de Aurinha, a coquista foi morar no Rio de Janeiro após a desvalorização dela aqui pelo Estado. Faltou uma base de apoio, diante de uma realidade que afetou o segmento artístico como um todo, mas de forma mais sentida nas agremiações e movimentos populares. A cidade natal, Olinda, em especial o largo do Amparo, continuavam vivos em seu coração, mas as condições não permitiam viver neste espaço.


Passando por cima de todas as dificuldades, incluindo a saúde que já vinha debilitada, Aurinha se adaptou nas transmissões ao vivo (lives), dançando, sorrindo e cantando no ritmo contagiante do coco. A cantora começou a vida artística nos corais de igrejas católicas, e depois se integrou à tradição do coco do bairro do Amaro Branco, quando participou por 10 anos do grupo de Selma do Coco.


Seguindo carreira solo desde os anos 90, Aurinha foi reconhecida em diversas partes do Brasil e se apresentou junto a nomes como Naná Vasconcelos (que a chamava de 'primeira-dama do coco'), Alceu Valença, Lia de Itamaracá, Mestre Ferrugem, entre outros.


Compositora e intérprete do típico coco raiz, ela transitava pelos diversos estilos e temas, incluindo a temática bastante atual do feminicídio e a posição enquanto mulher na sociedade, como na música-título do seu último álbum, "Seu Grito":



Mestra Aurinha do Coco deixou três filhas. O corpo da artista, mesmo velado no Rio de Janeiro, foi cremado e as cinzas transportadas para Olinda, sendo jogadas, em cerimônia, no mar da colônia de pescadores. A família pretende realizar a missa de sétimo em Olinda, no dia 2 de fevereiro, e está levantando recursos para o pagamento das passagens aos familiares.


Que as lembranças, homenagens e o reconhecimento das comunidades populares tradicionais não fiquem restritas às animadas rodas de coco, mas também à garantia de sobrevivência e investimentos públicos e privados, para que artistas de renome como Aurinha do Coco não fiquem em dificuldades que obriguem a saída de sua terra natal em busca de melhores condições de vida e trabalho lá fora.





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