A IMPORTÂNCIA DE SE REVISITAR

Como a atitude de se permitir o reencontro pode ser transformador em um momento de tantas incertezas que funcionam como gatilhos de medos e angustias em tempos de pandemia.


Qual foi a última vez que você chorou nos últimos quinze dias?


Se essa pergunta tivesse sido feita em fevereiro de 2020 a resposta exata seria dia 09 de novembro de 2019, no último show da turnê "Nossa História" da ex-dupla Sandy & Junior, no Parque Olímpico na cidade do Rio de Janeiro.


Aquelas lágrimas eram de alegria por ter vivido uma experiência tão única em um show grandioso e muito aguardado, pelo reencontro com uma fase da minha vida que precisava ser "revisitada" para enfim poder acolher o Xando criança e adolescente cheio de inseguranças e incertezas frente as escolhas que deveria fazer para um futuro profissional. Esse show, assim como as lágrimas que derramei, estavam relacionadas ao encantamento de sons e palavras que fizeram e farão para sempre parte de minha história de vida.


Hoje, 08 de julho de 2021, posso responder que o choro se tornou mais frequente do que gostaria ou do que imaginaria verter. Digamos que ao menos duas vezes por semana minha sensibilidade está mais aflorada. Meus medos se transformam em pensamentos recorrentes que me fazem duvidar de mim mesmo e de minhas habilidades e competências.


Tudo ficou mais pesado, as relações de pertencimento e realização no trabalho e estudos, a troca afetiva com amigos e familiares, a super exposição a conteúdos digitais, a realização de tarefas simples como trocar de roupa, arrumar a casa, cuidar do jardim e cuidar do corpo. Tudo ficou mais desorganizado e um pouco sem nexo. Parece que a linha que ligava todos esses pontos em mim ficou repartida perdendo a unidade que havia até poucos meses atrás.


A minha rede social (pessoas com as quais tenho intimidade real e que me são caras) também tem enfrentados desafios de diversas ordens. Não consigo nem contar quantos amigos precisaram de um apoio para pagar contas ou até mesmo colocar comida no prato. Isso mesmo! COMIDA!!! Pessoas que trabalham desde cedo que não tinham dinheiro para o básico. Impossível ver companheiros desta jornada da vida nessa situação e não ajudar com o que se pode, só que chega um momento em que fica inviável continuar este amparo tanto no financeiro quanto no emocional.


Como eu poderia amparar mais alguém se minhas próprias estruturas estão balançadas? Como ajudar financeiramente alguém se meus boletos também se acumulam no centro da sala? Como entregar alegria se ela também me falta?


Sempre pensei que em algum momento nesta vida eu poderia chegar em um ponto no qual pudesse perder meu rumo e minhas referências, fosse através de decepções com pessoas ou ainda frustrações quanto a meus projetos não realizados. Contudo, nunca imaginei que chegaria ao ponto de duvidar de mim mesmo, duvidar da necessidade da minha existência, duvidar que seria possível um momento melhor pós-vacinação contra a COVID-19.


Me percebi solto e sem ter como e em que me agarrar nesta queda livre que está sendo 2021. Muitas certezas foram jogadas no lixo, sonhos perdidos, valores precisando ser revisitados. Nunca senti tanta falta de chorar por causa de um show de Sandy & Junior. Aquele show com mais de 100 mil pessoas cantando de mãos dadas deu lugar a um pesadelo escuro e solitário num contexto de quarentena, mas que tenho certeza ser compartilhado por outras pessoas que, assim como eu, perderam amigos, colegas de trabalho ou ainda familiares.


O meu lugar de fala é privilegiado, eu sei. Tenho uma renda estável equipamentos tecnológicos e acesso a internet, sou homem e uma pessoa branca que teve acesso a educação formal. E apesar de tanto minha humanidade está fragilizada diante das notícias que ouço, vejo, leio e sinto sobre temas áridos de uma sociedade preconceituosa e violenta que parece não aprender ou viver de fato a tão citada "empatia".


Trabalhar começou a ser um gatilho para uma ansiedade que nem lembrava existir dentro de mim. Sempre amei estar em sala de aula, uma das minhas certezas desde a adolescência era de que um dia seria um bom professor, e hoje me vejo tremer antes de cada aula síncrona que ministro através do Google Meet. Não vejo mais rostos, não ouço muitas vozes e histórias de meus alunos e aquela troca intensa de energia que me possibilitava aprender tanto com eles se transformou, em boa parte, numa experiência fria e distante onde duvido de minha capacidade de realmente ensinar.


Imagine, você arruma sua casa para receber amigos (alunos) para uma festa (aula) e prepara petiscos (slides) seleciona uma playlist bacana (conteúdos extras) e realiza uma apresentação (o encontro síncrono) verificando cada detalhe. Na festa do sábado você convida 30 pessoas e apenas 7 aparecem e as demais não avisam nada, não se justificam e mesmo assim depois te enviam mensagens irônicas com exigências sobre a festa da qual faltaram. No domingo dos 40 convidados aparecem 34 e eles te dizem que a festa foi maravilhosa. O problema é que o tema da festa foi o mesmo nos dois dias. O que estaria errado então? Sinceramente, cansei de procurar uma resposta ou solução racional. Decidi que a cada "festa" iria respirar fundo, tentar me tranquilizar e torcer para que tudo acabe logo ou que ao menos seja minimamente frustrante.


Ainda no trabalho perdi colegas que tinham contato direto comigo, com os quais trocava ideias sobre procedimentos e dividia responsabilidades. Com a partida deles fiquei só, e com mais responsabilidades e compromissos que tinha para além do que já era minha obrigação. As cobranças e demandas não param de chegar para que eu pudesse viver meus lutos e angustias. A instituição não pode parar, mas e eu, eu posso? Eu tenho que ser produtivo e colaborativo até a minha última força?


As coisas só não ficam mais difíceis a cada minuto pois estou cercado por pessoas como meu diretor que compreende a impossibilidade de fazer tudo o que me é demandado respeitando meu tempo, e reconheço que isso é um luxo. As coisas não ficam ainda mais difíceis pois tenho alguns alunos que acreditam na transformação que o curso fará em suas vidas e na de suas famílias e isso me faz lembrar o motivo pelo qual decidi ser professor de uma instituição educacional pública.


Mesmo assim me fere saber de comentários de colegas, alunos e "amigos" que fiscalizam minhas redes sociais para medir o tamanho da minha "imensa" alegria, que me negam o direito de tentar sorrir ou me distrair durante 2 ou 3 horas com amenidades depois de tentar dar conta de 7 turmas e 4 atividades administrativas na escola na qual trabalho.


Até fazer exercício físico parece incomodar as pessoas. Minha escolha por buscar uma melhor condição de saúde também não pode ser exposta, é como se fosse uma superficialidade, um entretenimento. Isso é tão surreal... logo eu que não gosto de estar em espaços como academia. A foto do treino é como um ritual, uma forma de registrar para mim mesmo que estive ali, que consegui sair de casa mais um dia.


Infelizmente, é fácil julgar o "espetáculo" sem passear pela coxia, sem conhecer os bastidores e compreender que muitas vezes é apenas aquele instante do "show" que dura minutos ou horas que faz todos os tropeços e dores valerem apena. Cada tremor por medo do futuro imprevisível, cada lagrima que não vem de uma saudade gostosa, cada questionamento que levantamos sobre nossa existência além de se apresentar como algo assustador também pode ser encarada como uma experiência de transformação, onde revisitamos nosso casulo em busca de acolhimento e proteção.


Daí a importância de se revisitar, de lembrar o motivo pelo qual estamos ocupando algum espaço, de sentir e perceber nossos limites e fazer desse reencontro com a nossa própria história um combustível para não desistir de tudo no meio do caminho. É sobre superar os medos, as dúvidas e a ansiedade sem fingir que elas não existem. Não é sobre o ter, é sobre pertencer, é sobre ser.


Por isso sigo ouvindo os meus discos, postando minhas fotos nas redes sociais e quando necessário também abrindo espaço para minhas lágrimas e assim não me perder de mim, para que eu lembre de onde eu vim e de quem eu sou.


Também se permita revistar projetos, experiências e pessoas. Revisitar para não esquecer, revisitar para não se perder. Revisitar para não se abandonar.

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