• Winston Luiz

A Mulher Monstro

Atualizado: 24 de Out de 2019


Sentar-se na plateia de um espetáculo como "A Mulher Monstro" e ver apenas o óbvio é fácil e cômodo. Mas este é um daqueles trabalhos que pedem de nós um olhar mais demorado e reflexivo.


É um trabalho que mexe conosco, que incomoda. A digestão é demorada.


E é este tipo de incômodo de que precisamos em tempos sombrios como os que vivemos.


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Antes de parar e escrever este texto, tomei um tempo para buscar o que fora escrito por outros sobre o espetáculo. Encontrei breves sinopses nas quais não reconheço o trabalho e comentários superficiais. Alguns dos textos lidos me fizeram duvidar do fato de o escritor/comentarista ter realmente visto a apresentação.


Como tanta coisa pôde passar despercebida?


Embora o espetáculo seja simples, todo o trabalho está repleto de simbolismo, e muitos elementos têm o potencial de comunicar muito mais do que parece. Jaula, cadeados, chaves, panelas, pérolas... são só alguns dos elementos sobre os quais poderíamos discutir. Dentro daquele contexto são muito mais do que podem parecer.


Considere, por exemplo, o fato de vermos uma mulher enjaulada/engaiolada diante de nós - há um detalhe ali para o qual devemos atentar: os cadeados que a aprisionam estão com suas chaves. Bastaria um pequeno esforço da enfurecida senhora para abri-los sem dificuldade, o que a libertaria do cativeiro. Toda a sua atenção e energia, porém, estão voltadas para atacar pessoas e destilar veneno. Assim, perpetua-se sua prisão.


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Devemos questionar a natureza do encarceramento, especialmente considerando-se as liberdades que a personagem tem, como um celular, por exemplo.


Não desejo superinterpretar a obra, mas sugiro ao leitor, caso tenha a oportunidade de assistir à peça, que possa entender a gaiola como a intimidade da personagem; como nosso labirinto interno.


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A peça inicia-se com sons indistintos de uma mulher que vomita um colar de pérolas. Tradicionalmente, as pérolas representam pureza, delicadeza. Nada que combine com vômito ou com o comportamento que veremos em seguida: ganância e ódio.


Isso contrasta com as admoestações do texto do Novo Testamento “...a boca fala do que está cheio o coração” e "...não deiteis vossas pérolas aos porcos...". Não, leitor, a referência a textos bíblicos para provocar reflexão crítica não é leviana aqui: em vários momentos do texto eles serão usados direta ou indiretamente.


E, como neste exemplo, são numerosas as referências a trechos bíblicos, ditados populares, e outras fontes. Nem sempre com palavras.


Mas, é claro, as palavras são importantes. A partir delas é que construímos a imagem da personagem e descobrimos quem ela é. Como não temos outros personagens em cena, cada frase conta.


Uma outra referência não textual é fácil de identificar no gesto de armas feito com as mãos. Qualquer semelhança não é mera coincidência.


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Apenas advirto que uma referência como esta não deve reduzir o trabalho a "uma crítica ao governo".


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A caracterização da personagem também é digna de atenção: pele branca, olhos azuis (ditos naturais pela personagem), cabelos louros, nariz angulado - com ângulos tão marcados que só a naturalidade da cirurgia plástica poderia proporcionar.


O trabalho nos dá elementos para pensar não só em ideias arcaicas (e que ainda nos assombram no presente, como o branqueamento da raça), mas também para discutir modelos estéticos e ideais de beleza.



Apesar de ser uma caricatura, os elementos característicos do rosto da personagem são muito relevantes. E lembre que o rosto é o cartão de vista das selfies. Certas características falam muito por si. Incluem ou excluem de círculos sociais.


Embora sejam vistas características caucasianas na face, a Mulher Monstro possui pés de um animal.


Os pés de sátiro, ou bode - se preferir regionalizar a imagem - mais uma vez me fazem pensar no ser híbrido do Minotauro - ser meio homem, meio touro, que matava as pessoas perdidas no labirinto de Creta.


A principal diferença aqui é que o ataque da Mulher Monstro concentra-se no discurso, nas palavras e naquilo que transmitem. Mas, sim, também pode matar.


Não se engane, leitor: a monstruosidade do humano está dentro: "Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração" [Mateus 12:34].


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Todos temos sombras - aquele lado de nós mesmos que tentamos esconder e de que até nos esquecemos, às vezes. A Mulher Monstro é um ser sem sombra, pois ela é a própria sombra.


Diante da plateia ela apresenta seus pensamentos desnudos, sem artifícios e sem o anonimato da internet.


Ela é o que é: Horrível. Assustadora. Repugnante.


É a imagem que muitos não têm a coragem de enfrentar ao olhar no espelho, mas que ajudam a manter viva e perpetuam, especialmente nas redes sociais.


Além disso, a personagem está isolada num mar de escuridão. As luzes, pontuais, muitas vezes representam personagens que não estão ali, às nossas vistas, mas com as quais ela interage, discute, ofende.


O estar aberto à perspectiva do outro pode nos ajudar a iluminar nossas próprias trevas; nos permite sair de nós mesmos, e nos proporciona uma ampliação de horizontes.


Entretanto, a Mulher Monstro consegue ir apagando as perspectivas, as luzes, uma a uma, assim como as pessoas do Mito da Caverna mataram o mensageiro que tinha a intenção de mostrar-lhes a realidade para além da escuridão.


Sim, certamente conseguimos ver no texto críticas diretas ao discurso que é defendido por pessoas que apoiam o atual governo, mas as questões são muito mais profundas: a Mulher Monstro é uma pessoa "comum" que carrega consigo uma carga explosiva, alimentada por ódio, racismo, preconceito, intolerância.


O que assusta na intrigante interpretação do jovem ator e diretor José Neto Barbosa é o fato de que aquela mulher é apenas a personificação do ódio que é transmitido quotidianamente no país e no mundo.


Ela é a imagem do brasileiro comum. De pessoas como nós. De homens e mulheres que muitas vezes sequer percebem que tipo de valores estão defendendo e alimentando. De pessoas que não conseguem ver no outro alguém digno de ter os mesmos direitos que defende para si.


Apoiar frases de ódio, desconexas, despersonalizadas, é fácil. Talvez, por isso mesmo, o trabalho "A Mulher Monstro" seja tão importante e mereça uma versão para a internet. Como poucos irão até ela, espero que ela possa ir ao encontro de muitos, que incomode e que faça refletir.


O ser humano é muito complexo, seu interior, como um labirinto. Dentro de cada um há um Minotauro que nos assombra e persegue com o que há de mais obscuro em nós. Se não o enfrentarmos, ele continuará a reinar ditatorialmente. As conseqüências são graves: transbordam do íntimo para a vida social e nos atingem a todos.


A obra é uma ataque, sim! Mas não um ataque ao governo; não um ataque a uma figura específica; não um ataque a uma ideologia x ou y. Não um ataque a mim ou a ti.


É um ataque ao monstro que existe dentro de cada um de nós e que, por vezes, não queremos ver.


#amulhermonstro #teatro #josenetobarbosa #tocandoideias


……….


A GAIOLA

(Maria do Carmo B. C. de Melo, poetisa pernambucana)


E era a gaiola e era a vida era a gaiola

e era o muro a cerca e o preconceito

e era o filho a família e a aliança

e era a grade a fila e era o conceito

e era o relógio o horário o apontamento

e era o estatuto a lei e o mandamento

e a tabuleta dizendo é proibido.


E era a vida era o mundo e era a gaiola

e era a casa o nome a vestimenta

e era o imposto o aluguel a ferramenta

e era o orgulho e o coração fechado

e o sentimento trancado a cadeado.


E era o amor e o desamor e o medo de magoar

e eram os laços e o sinal de não passar.

E era a vida era a vida o mundo e a gaiola

e era a vida e a vida era a gaiola.


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© 2019 por Xando Vilela

TODAS AS GRAVURAS FORAM DESENVOLVIDAS PELO ARTISTA PERRON RAMOS © 2019

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